O transporte aéreo mundial registou máximos históricos de passageiros, carga aérea e movimentos de aeronaves em 2025. No entanto, os primeiros seis meses de 2026 revelam um abrandamento significativo do crescimento, condicionado pelas tensões geopolíticas, perturbações no espaço aéreo e aumento dos custos.

Os aeroportos de todo o mundo receberam um número recorde de 9,8 mil milhões de passageiros em 2025, segundo os dados divulgados esta quarta-feira, 23 de setembro, pelo Airports Council International (ACI) World.

Os resultados constam do 2026 Annual World Airport Traffic Report, que apresenta também novos máximos no transporte de carga aérea e nos movimentos de aeronaves, confirmando a dimensão alcançada pelo setor da aviação comercial.

O relatório baseia-se em dados de 2.817 aeroportos comerciais, o maior conjunto de informação alguma vez utilizado pela organização, abrangendo cerca de 97% do tráfego mundial de passageiros em voos regulares.

Apesar dos resultados históricos de 2025, a evolução registada nos primeiros meses de 2026 aponta para uma desaceleração da atividade, num contexto marcado por instabilidade geopolítica, perturbações nas operações aéreas e pressões económicas.

Crescimento impulsionado pelas viagens internacionais

Em 2025, o tráfego internacional de passageiros aumentou 6,1%, superando claramente o crescimento de 1,7% registado nas ligações domésticas.

A nível global, o transporte de carga aérea atingiu 131,2 milhões de toneladas, correspondendo a um crescimento anual de 3,3%. Por sua vez, os movimentos de aeronaves aumentaram 2%, totalizando 103,1 milhões.

A evolução do tráfego de passageiros foi positiva em praticamente todas as regiões do mundo, embora com diferenças significativas entre mercados.

África liderou o crescimento, com uma subida de 9%, seguida do Médio Oriente, com 6,5%, e da região Ásia-Pacífico, onde o tráfego aumentou 5,1%.

A América Latina e Caraíbas registaram um crescimento de 4,5%, enquanto a Europa apresentou uma evolução positiva de 4,2%.

A América do Norte foi a única região a registar uma quebra, com o tráfego de passageiros a diminuir 0,7%, refletindo sobretudo o enfraquecimento da procura no mercado doméstico.

Primeiro semestre de 2026 revela abrandamento

Os dados relativos à primeira metade de 2026 mostram uma evolução bastante mais moderada.

Entre janeiro e junho, o tráfego mundial de passageiros atingiu aproximadamente 4,7 mil milhões, representando um crescimento de apenas 0,6% face ao período homólogo de 2025.

A desaceleração ocorre depois de um ano de forte expansão e está associada a um conjunto de fatores que têm condicionado o funcionamento da indústria, nomeadamente as tensões geopolíticas, as restrições e perturbações no espaço aéreo e o aumento dos custos operacionais.

Durante este período, África, Europa, América Latina e Caraíbas e Ásia-Pacífico mantiveram uma trajetória de crescimento. Na América do Norte, o tráfego permaneceu praticamente estável.

O Médio Oriente registou a evolução mais negativa, com uma redução de 21% no número de passageiros, num contexto de agravamento da crise regional e de perturbações no espaço aéreo.

Aeroportos enfrentam desafios de capacidade e investimento

Perante os resultados de 2025, Justin Erbacci, diretor-geral do ACI World, destacou a continuidade da procura de viagens aéreas a longo prazo e a necessidade de preparar os aeroportos para responder ao crescimento futuro.

O responsável sublinhou que será necessário aumentar a capacidade aeroportuária, mas também melhorar a utilização das infraestruturas existentes, de forma a responder à procura de maneira mais eficiente.

O ACI World defende igualmente um enquadramento regulatório que facilite o investimento e permita aos aeroportos desenvolver as infraestruturas necessárias, tendo em conta o seu papel estratégico nas comunidades onde operam.

Perspetivas de longo prazo mantêm-se positivas

Apesar das dificuldades que marcam o contexto atual, o relatório mantém uma perspetiva de confiança quanto à evolução estrutural da procura de transporte aéreo.

O crescimento da população, o aumento dos rendimentos, a expansão da conectividade e a procura contínua de mobilidade são apontados como fatores que deverão continuar a sustentar a atividade da aviação nas próximas décadas.

Os resultados de 2025 demonstram a dimensão alcançada pelo transporte aéreo mundial, enquanto os dados de 2026 evidenciam a sensibilidade do setor às condições económicas e geopolíticas.

O desafio para os aeroportos passa agora por gerir as perturbações de curto prazo e, simultaneamente, preparar a capacidade e os investimentos necessários para responder à procura futura.