A fase decisiva da privatização da TAP teve início com a entrega das propostas vinculativas por parte da Air France-KLM e da Lufthansa, os dois grupos que permanecem na corrida à aquisição de uma participação de referência na companhia aérea portuguesa. Embora os valores apresentados não tenham sido divulgados, as estimativas do mercado apontam para uma valorização muito superior à registada na anterior privatização.
De acordo com uma análise financeira baseada nas contas mais recentes da empresa, o valor da TAP poderá situar-se entre cerca de 1,95 e 2,07 mil milhões de euros. Tendo em conta que o Estado pretende alienar até 49,9% do capital, a operação poderá representar uma receita próxima de mil milhões de euros, podendo esse montante aumentar caso exista maior concorrência entre os candidatos.
A avaliação foi efetuada com base no desempenho financeiro da companhia e em operações comparáveis realizadas no setor da aviação, considerando igualmente o potencial de integração da TAP nos grupos interessados. Ao mesmo tempo, foram tidos em conta fatores que condicionam a valorização, como a limitação de capacidade do Aeroporto Humberto Delgado, a manutenção de uma posição maioritária do Estado e os desafios associados aos custos operacionais.
Empresa apresenta uma realidade muito diferente da de 2015
O valor atualmente atribuído à TAP contrasta fortemente com o da privatização realizada em 2015. Na altura, 61% do capital foi adquirido pelo consórcio Atlantic Gateway, numa operação que implicou um investimento total de cerca de 231 milhões de euros, traduzindo um valor implícito para a companhia de aproximadamente 350 milhões de euros.
Caso a atual avaliação se confirme, a transportadora portuguesa poderá valer mais de cinco vezes o montante estimado na anterior venda.
Esta evolução é explicada pela transformação registada ao longo da última década. A frota cresceu significativamente, passando de pouco mais de seis dezenas de aeronaves para cerca de uma centena, sendo atualmente composta maioritariamente por aviões Airbus de nova geração, mais eficientes em termos de consumo de combustível.
Também a atividade operacional aumentou de forma expressiva. O número de passageiros transportados cresceu cerca de 46%, enquanto as receitas aumentaram aproximadamente 84%. Paralelamente, a rentabilidade melhorou substancialmente, permitindo à empresa passar de prejuízos relevantes para resultados positivos nos últimos exercícios.
Brasil e América do Norte impulsionaram o crescimento
O reforço da operação nos mercados do Brasil, Estados Unidos e Canadá foi um dos principais motores da recuperação da TAP. Estas rotas continuam a destacar-se pelo elevado nível de procura e pela capacidade de gerar receitas superiores à média da rede da companhia.
O mercado brasileiro mantém um papel particularmente relevante, uma vez que a TAP continua a ser uma das principais transportadoras entre o Brasil e a Europa, concentrando uma fatia significativa deste tráfego.
Além do transporte de passageiros, a área de Manutenção & Engenharia também registou uma evolução positiva nos últimos anos, aumentando o seu volume de negócios e contribuindo para diversificar as fontes de receita do grupo.
Situação financeira reforçada após a reestruturação
Outro dos fatores que explica a valorização da companhia prende-se com a melhoria da sua posição financeira. Apesar de a dívida se manter elevada, o seu peso relativo diminuiu significativamente graças ao crescimento dos resultados operacionais.
A liquidez disponível e os capitais próprios apresentam atualmente níveis muito superiores aos registados antes da pandemia, refletindo igualmente o impacto do processo de reestruturação financiado pelo Estado português, que envolveu uma injeção de cerca de 3,34 mil milhões de euros.
Com uma estrutura financeira mais sólida, uma operação de maior dimensão e melhores indicadores de rentabilidade, a TAP enfrenta agora o novo processo de privatização numa posição bastante mais robusta do que aquela em que se encontrava há cerca de uma década.
Depois da receção das propostas vinculativas, a Parpública irá proceder à respetiva avaliação e elaborar um relatório para o Governo. Seguir-se-á, se necessário, uma fase de negociações antes da escolha do investidor que ficará com a participação a privatizar, numa decisão que terá em consideração não apenas a componente financeira, mas também os projetos estratégicos apresentados para o futuro da companhia.





