A Airbus Helicopters está a acelerar o desenvolvimento do U145, uma plataforma não tripulada baseada na família H145 e destinada a combinar elevada capacidade de carga, autonomia de voo, inteligência artificial e uma arquitetura modular capaz de responder a diferentes missões civis e militares. O projecto foi apresentado em detalhe durante os MDays 2026, em Marignane, França, onde a Aviação TV acompanhou as explicações dos responsáveis da Airbus e teve acesso às capacidades previstas para o sistema.
O U145 parte de uma plataforma já conhecida da Airbus, mas o objectivo vai muito além de retirar os pilotos de um H145. A fabricante está a desenvolver progressivamente um sistema capaz de assumir não apenas tarefas de pilotagem, mas também funções relacionadas com a própria execução da missão.
De acordo com os dados apresentados nos MDays, o U145 terá um peso máximo à descolagem de 3.800 kg, capacidade superior a 1.200 kg de carga interna e até 1.600 kg de carga externa. A Airbus aponta para um alcance superior a 500 quilómetros, velocidade de cruzeiro acima dos 222 km/h e uma autonomia de até 3 horas e 30 minutos.
A flexibilidade logística é um dos elementos centrais do conceito. A cabine poderá receber até quatro Euro-paletes, enquanto a configuração permitirá operações de carga através de diferentes acessos, incluindo a traseira e as laterais.
AUTONOMIA SERÁ DESENVOLVIDA POR ETAPAS
Durante a apresentação, a Airbus explicou que a passagem para níveis elevados de autonomia será feita progressivamente.
A empresa considera já possuir experiência tecnológica em funções como o voo para a frente e as fases de aproximação e aterragem. O trabalho agora passa por introduzir progressivamente mais algoritmos a bordo e aumentar a autonomia dos sistemas de missão.
Um dos maiores desafios identificados pela Airbus encontra-se no voo autónomo a baixa altitude em ambientes complexos. Nestas condições, obstáculos, terreno, meteorologia e outras ameaças obrigam o sistema a identificar alterações e reagir num espaço de tempo extremamente reduzido.
A arquitetura apresentada prevê capacidades como detecção e desvio de obstáculos no ar e no solo, alteração da trajectória perante condições meteorológicas adversas, ameaças ou tráfego e avaliação autónoma de zonas de aterragem.
O objectivo é atingir sucessivos níveis de maturidade tecnológica até existir um conjunto suficientemente consolidado para avançar para os processos junto das autoridades responsáveis pela certificação.
Mesmo nessa altura, o desenvolvimento não ficará concluído. A Airbus reconhece que os algoritmos poderão ser continuamente melhorados e que a evolução dos sensores deverá permitir aumentar progressivamente as capacidades da plataforma.
PRIMEIROS ENSAIOS AINDA COM PILOTO A BORDO
Apesar de o objectivo ser uma plataforma não tripulada, a fase actual de desenvolvimento continuará a contar com um piloto de segurança.
O aparelho utilizado pela Airbus resulta de um protótipo H145 anteriormente utilizado em ensaios do sistema Helionix. Nos últimos seis a sete meses, a plataforma foi modificada para receber os componentes necessários ao novo programa, incluindo alterações nos sistemas de actuação e componentes electromecânicos.
Segundo foi avançado nos MDays, se o programa decorrer conforme previsto, o helicóptero deverá ser transferido para Marignane durante as primeiras duas semanas de novembro de 2026, onde prosseguirá o desenvolvimento.
O cockpit continuará fisicamente preparado para dois ocupantes, mas apenas o lugar direito será utilizado pelo piloto nesta fase. Os comandos desse lado permanecem funcionais, enquanto os controlos do lado esquerdo foram desactivados.
A presença de um piloto nesta etapa permite à Airbus desenvolver e validar progressivamente as funções autónomas sem passar directamente para operações completamente não tripuladas.
DO TRANSPORTE DE CARGA AO COMBATE A INCÊNDIOS
As imagens apresentadas pela Airbus mostram que a utilização civil do U145 poderá ser bastante ampla. Uma das missões previstas é o transporte autónomo de carga, particularmente relevante em locais de difícil acesso ou em situações nas quais a utilização de tripulações possa representar um risco elevado.
Outra das aplicações apresentadas está relacionada com combate a incêndios e resposta a catástrofes. A ausência de tripulação poderá permitir utilizar a plataforma em ambientes particularmente perigosos, reduzindo a exposição humana.
O conceito contempla igualmente missões de retransmissão de comunicações, permitindo colocar temporariamente no ar uma plataforma capaz de aumentar ou restabelecer cobertura numa determinada região.
Operações marítimas e navais fazem igualmente parte das possibilidades estudadas para a plataforma.
U145 PODERÁ FUNCIONAR COMO “MOTHERSHIP” DE DRONES
É, contudo, na área militar que algumas das capacidades apresentadas assumem maior destaque. Uma das configurações prevê a utilização do U145 como “mothership” para outros drones.
A Airbus apresentou uma solução com dispensadores modulares que permitiria transportar e lançar sistemas não tripulados mais pequenos. Desta forma, o helicóptero autónomo funcionaria como plataforma de transporte e lançamento, aumentando significativamente a distância a que esses sistemas poderiam ser utilizados.
A solução permite combinar a autonomia e capacidade de carga do U145 com sistemas mais pequenos destinados a tarefas específicas.
O conceito ganha particular relevância num momento em que os conflitos recentes estão a demonstrar a crescente importância dos sistemas não tripulados.
Durante a apresentação, um responsável da Airbus referiu expressamente que toda a indústria de defesa está a observar aquilo que acontece na Ucrânia e noutras regiões onde os drones assumiram uma importância operacional crescente.
CAPACIDADE PARA COMBATER OUTROS DRONES
Outra configuração apresentada nos MDays está orientada para missões Counter-UAS, destinadas à luta contra sistemas aéreos não tripulados.
A solução mostrada pela Airbus combina sensores de detecção com sistemas destinados à identificação, classificação e intercepção de ameaças.
Na configuração apresentada, cada lançador poderá transportar até quatro interceptores, sendo indicado um alcance de intercepção de até 20 quilómetros.
A ideia é transformar o U145 numa plataforma aérea móvel capaz de detectar uma ameaça não tripulada, acompanhá-la e participar na sua neutralização.
Esta possibilidade permite ainda deslocar rapidamente a capacidade Counter-UAS entre diferentes áreas, em vez de depender exclusivamente de sistemas instalados no solo.
AIRBUS PROCURA PARCEIROS PARA DESENVOLVER AS NOVAS CAPACIDADES
A Airbus deixou igualmente claro nos MDays que não pretende desenvolver isoladamente todo o ecossistema tecnológico associado ao U145.
A estratégia passa por trabalhar tanto com empresas já estabelecidas na indústria de defesa como com startups capazes de fornecer tecnologias específicas.
Entre as empresas referidas durante a apresentação encontra-se a MBDA, mas a Airbus mostrou-se disponível para trabalhar com diferentes fornecedores e parceiros na integração de sensores, sistemas de missão, armamento ou outras capacidades.
O princípio é relativamente simples: a Airbus disponibiliza uma plataforma com capacidade de transporte, alcance e autonomia significativos e procura depois integrar os equipamentos necessários para diferentes missões.
Segundo o responsável pelo programa, algumas das capacidades apresentadas suscitaram uma reacção particularmente positiva entre potenciais interessados, nomeadamente pela possibilidade de aumentar substancialmente a área operacional.
TECNOLOGIA NÃO FICARÁ LIMITADA AO U145
Outro dos aspectos revelados durante a apresentação é que o trabalho realizado no U145 poderá ter consequências muito para além desta plataforma.
A Airbus alterou nos últimos anos a forma como aborda o desenvolvimento destas tecnologias. Cada nova capacidade é agora analisada tendo em conta a possibilidade de ser posteriormente utilizada noutras plataformas da Airbus Helicopters.
O NH90 foi directamente mencionado como exemplo de uma plataforma que poderá receber determinados sistemas desenvolvidos neste programa. A sua maior capacidade de carga poderá inclusivamente permitir configurações mais exigentes.
O mesmo princípio poderá aplicar-se futuramente ao H225, caso exista necessidade operacional para integrar capacidades semelhantes.
A escolha do H145 como plataforma inicial não aconteceu por acaso. Trata-se de um dos produtos de maior sucesso comercial da Airbus Helicopters e de uma plataforma cujo comportamento, arquitectura e custos são profundamente conhecidos pela fabricante.
Isso permite utilizar o U145 como uma espécie de laboratório para desenvolver e amadurecer tecnologias que poderão posteriormente chegar a outros helicópteros.
UMA PLATAFORMA E NÃO APENAS UM HELICÓPTERO SEM PILOTO
A apresentação realizada nos MDays deixa assim perceber que a Airbus não pretende simplesmente criar uma versão do H145 que possa voar sem pilotos.
O conceito é bastante mais abrangente.
O U145 está a ser desenvolvido como plataforma autónoma e modular, capaz de receber diferentes sistemas de missão e adaptar-se às necessidades de cada operador.
Transporte logístico, combate a incêndios, resposta a catástrofes, retransmissão de comunicações, operações navais, lançamento de drones e missões Counter-UAS encontram-se entre as aplicações apresentadas.
O desenvolvimento progressivo da inteligência artificial, dos sensores e dos algoritmos deverá aumentar a capacidade do sistema para tomar decisões sem intervenção humana directa, embora os primeiros ensaios continuem a ser realizados com um piloto de segurança.
Ao mesmo tempo, a possibilidade de transferir estas tecnologias para plataformas como o NH90 ou H225 mostra que o programa poderá ter um alcance significativamente maior do que o próprio U145.
A evolução dos conflitos recentes e a utilização crescente de sistemas não tripulados estão a alterar rapidamente as necessidades das forças armadas. A resposta da Airbus Helicopters passa por combinar uma plataforma já comprovada com autonomia, inteligência artificial e sistemas de missão desenvolvidos em colaboração com diferentes parceiros.
Os próximos meses serão agora importantes para o programa. Com a transferência do protótipo para Marignane prevista para novembro de 2026, a Airbus prepara-se para avançar para uma nova etapa dos ensaios de uma tecnologia que poderá ajudar a definir a próxima geração de operações com helicópteros.





