Houve um tempo em que Lisboa acordava com um som diferente. Não era o ruído contínuo dos jatos nem o movimento incessante dos terminais modernos. Era o eco distante de motores a pistão sobre a água, aproximando-se lentamente do estuário do Tejo após dias de travessia oceânica. Os aviões chegavam pelo rio.

A 29 de junho de 1939, Lisboa entrou definitivamente no mapa da aviação intercontinental. Nesse dia, um hidroavião de longo curso amarou no Tejo, proveniente de Nova Iorque, assinalando o início das ligações aéreas transatlânticas regulares por hidroavião à capital portuguesa. A operação decorreu na zona de Cabo Ruivo, onde hoje se encontra a Doca dos Olivais, então preparada para receber algumas das aeronaves mais avançadas do seu tempo.

Lisboa não dispunha ainda do aeroporto que hoje conhecemos. A cidade recebia o mundo através da água. O Tejo funcionava como base marítima de hidroaviões, ponto de chegada e de partida para passageiros, correio e cargas ligeiras, numa época em que voar era raro, dispendioso e reservado a poucos. Cada amaragem era um acontecimento. Cada chegada trazia notícias de um mundo distante, num continente em guerra e noutro em expectativa.

Durante a II Guerra Mundial, a neutralidade portuguesa transformou Lisboa num elo discreto, mas essencial, entre a América, a Europa e África. Pelo Tejo passaram hidroaviões operados por várias companhias internacionais, entre elas a Pan American World Airways, a Imperial Airways (mais tarde BOAC) e a Air France. Cada operador utilizava diferentes modelos de aeronaves, símbolos de uma era em que o futuro da aviação ainda se refletia na superfície da água.

Os passageiros desembarcavam após longas horas — por vezes dias — de viagem. Alguns ficavam em Lisboa; outros prosseguiam para o interior da Europa. Com a inauguração do Aeroporto da Portela, em 1942, foi criada uma ligação direta entre o rio e o novo aeroporto, através da então Avenida de Ligação entre Aeroportos, hoje Avenida de Berlim. A cidade adaptava-se, gradualmente, a uma aviação que evoluía a grande velocidade.

Mas essa era foi breve. No pós-guerra, os aviões terrestres de longo alcance tornaram-se mais rápidos, mais eficientes e economicamente viáveis. Os grandes hidroaviões, majestosos mas complexos e dispendiosos de operar, começaram a desaparecer. No início dos anos 1950, cessaram as operações regulares de hidroaviões intercontinentais no Tejo.

O encerramento foi silencioso. Não houve cerimónias nem despedidas. Apenas o tempo a avançar.

Hoje, nada indica que ali, onde passam automóveis e contentores, já amararam aviões vindos do outro lado do Atlântico. Não restam aeronaves, nem terminais, nem placas evocativas. Apenas fotografias, documentos e memórias dispersas de um período em que Lisboa foi, por breves anos, porta aérea do mundo.

Fotos: Câmara Municipal de Lisboa