Portugal aproxima-se de uma das decisões mais importantes da história recente da Força Aérea Portuguesa: a substituição dos atuais F-16M. A escolha do próximo caça irá influenciar a defesa nacional durante várias décadas e envolve muito mais do que apenas comprar aviões. Estão em causa custos de operação, formação de pilotos, manutenção, indústria nacional, integração NATO e capacidade militar real.
Os dois nomes mais falados são o norte-americano F-35A Lightning II e o sueco Saab Gripen E/F. São duas aeronaves modernas, mas com filosofias completamente diferentes.
O F-35 é atualmente considerado um dos caças mais avançados do mundo. Trata-se de uma plataforma de 5.ª geração com capacidade furtiva, sensores extremamente sofisticados e integração total em operações NATO. O avião foi desenvolvido para cenários de guerra moderna de elevada intensidade, conseguindo operar em ambientes altamente protegidos e partilhar informação em tempo real com outras forças aliadas.
Na Europa, o F-35 tornou-se praticamente o novo padrão entre vários países NATO. Reino Unido, Itália, Países Baixos, Noruega, Bélgica, Polónia, Finlândia, Alemanha, Roménia e Grécia já escolheram esta aeronave. Caso Portugal siga esse caminho, ficará alinhado com muitos dos seus principais parceiros militares.
Mas toda essa capacidade tem um preço elevado
O custo unitário de um F-35A ronda atualmente os 80 a 90 milhões de dólares, embora os programas completos — incluindo manutenção, formação, armamento, simuladores e logística — façam os valores finais subir significativamente.
O maior desafio do F-35 surge sobretudo na operação e sustentação da frota. Diferentes estimativas internacionais apontam para custos entre 33 mil e 50 mil dólares por hora de voo, dependendo da metodologia utilizada e do tipo de despesas incluídas nos cálculos. O próprio Government Accountability Office dos EUA tem alertado para aumentos nos custos de sustentação e para dificuldades de disponibilidade operacional em várias frotas.
A formação de pilotos também é particularmente exigente. O F-35 não é apenas um caça tradicional: obriga o piloto a gerir sensores avançados, guerra eletrónica, operações furtivas e sistemas altamente digitalizados. Grande parte da formação é realizada em simuladores sofisticados e Portugal dependeria fortemente de centros internacionais, sobretudo nos EUA e em países NATO operadores do modelo.
Do outro lado surge o Saab Gripen E/F
O caça sueco segue uma filosofia diferente. Em vez de apostar exclusivamente na superioridade tecnológica absoluta, a Saab procurou desenvolver uma aeronave moderna, eficaz e mais sustentável para países de dimensão média.
O Gripen E/F não possui capacidade furtiva comparável à do F-35, mas continua a ser um caça bastante avançado, equipado com radar AESA, guerra eletrónica moderna e integração NATO. Além disso, foi concebido para operar com custos mais controlados, manutenção rápida e equipas técnicas reduzidas.
O conceito sueco privilegia simplicidade operacional e elevada disponibilidade. O Gripen pode operar em estradas ou pistas dispersas, necessita de menos infraestrutura pesada e consegue ser reabastecido e rearmado rapidamente em cenários de dispersão.
Atualmente, o Gripen é utilizado por países como Suécia, Brasil, Hungria, República Checa, África do Sul e Tailândia. O caso brasileiro tornou-se especialmente relevante devido à transferência tecnológica, formação nacional e cooperação industrial com a Embraer.
Em termos financeiros, o Gripen tende a apresentar custos operacionais mais reduzidos, embora os valores variem bastante conforme os contratos e metodologias de cálculo. Estimativas prudentes colocam o custo operacional entre 20 mil e 36 mil dólares por hora de voo. Surgem frequentemente referências a valores muito inferiores, próximos dos 8 mil ou 12 mil dólares por hora, mas muitos especialistas consideram esses números demasiado simplificados para refletirem o custo completo de operação de uma frota moderna.
Também na formação existem diferenças importantes. O Gripen foi desenhado para reduzir a carga de trabalho do piloto e simplificar processos operacionais. O programa brasileiro demonstrou uma adaptação relativamente rápida de pilotos e técnicos, com menor dependência logística quando comparado com o F-35.
Outro fator importante é a componente industrial. A Saab já demonstrou interesse em envolver empresas portuguesas e a OGMA em futuras parcerias industriais, algo que poderá ter peso político relevante. No caso do F-35, o programa é muito mais centralizado nos Estados Unidos, oferecendo menor margem de participação industrial nacional.
No final, a decisão portuguesa será tudo menos simples
Se Portugal procurar o caça tecnologicamente mais avançado, com furtividade e integração máxima nas operações NATO, o F-35 surge naturalmente como a solução mais poderosa.
Mas se o objetivo passar por uma plataforma mais sustentável financeiramente, com menores custos operacionais, maior facilidade de manutenção, mais horas de treino e possível retorno industrial para Portugal, o Gripen E/F ganha força como uma alternativa extremamente séria.
A verdadeira questão talvez nem seja descobrir qual é o melhor avião. A pergunta mais importante será perceber qual é o caça que Portugal conseguirá operar eficazmente, manter disponível e sustentar financeiramente durante os próximos anos.





