O Antonov An-22 “Antei” ocupa um lugar absolutamente singular na história da aviação. Mais de meio século após o seu surgimento, continua a deter um recorde nunca superado: é o maior avião turbo-hélice alguma vez construído. Concebido em plena Guerra Fria, o An-22 foi uma afirmação inequívoca da ambição tecnológica e industrial da União Soviética.

O início do projecto

O desenvolvimento do An-22 teve início em 1961, no Gabinete de Design Antonov, com o objectivo de criar um avião de transporte estratégico pesado para a Aviação de Transporte Militar da Força Aérea Soviética (Военно-транспортная авиация – VTA). O projecto inicial recebeu a designação An-20, adoptando desde logo a configuração clássica de asa alta e múltiplos motores, adequada a operações a partir de pistas curtas e pouco preparadas.

À medida que as exigências de carga e alcance aumentaram, o conceito evoluiu para o chamado Modelo 100, ultrapassando largamente a escala dos aviões de transporte conhecidos na época.

A 18 de agosto de 1964, o primeiro protótipo foi apresentado publicamente ao sair do hangar pela primeira vez, recebendo a designação definitiva Antonov An-22. O avião foi também baptizado “Antei”, inspirado em Antêu (Antaeus), o gigante da mitologia grega cuja força simbolizava a missão do aparelho.

O primeiro voo realizou-se a 27 de fevereiro de 1965, confirmando a viabilidade do maior avião de hélices alguma vez concebido. A produção foi atribuída à Tashkent Aviation Production Association, no então Uzbequistão soviético. Em 1969, o An-22 entrou oficialmente ao serviço da Aviação de Transporte Militar (VTA), operando a partir da base de Ivanovo Severny, que se tornaria um dos principais centros de utilização do modelo.

Concepção e dimensões

O An-22 apresentava uma fuselagem tubular totalmente pressurizada, de grande volume interno e configuração de fuselagem larga. Media cerca de 57,9 metros de comprimento, 12,5 metros de altura e tinha um diâmetro aproximado de 5,86 metros. O avião foi deliberadamente concebido para permanecer baixo durante a aterragem, facilitando as operações de carga e descarga.

Um anteparo pressurizado localizado na estrutura separava o compartimento principal de carga da zona da tripulação, permitindo ainda que a grande porta traseira pudesse ser aberta em voo para o lançamento de paraquedistas e equipamento.

A aeronave destacava-se pela sua configuração de cauda dupla e por um robusto trem de aterragem com 14 rodas, optimizado para operação em pistas de terra ou cascalho, com uma distância entre eixos de cerca de 19,7 metros. O desenho de asa alta, com 64,4 metros de envergadura e uma área alar de 345 metros quadrados, suportava dois motores em cada semiasa.

O compartimento de carga tinha cerca de 32,7 metros de comprimento, 4,44 metros de largura e altura, podendo acomodar até 29 passageiros, para além da tripulação técnica e pessoal de apoio, totalizando cerca de 35 pessoas a bordo, consoante a missão.

Motores e desempenho

O Antonov An-22 era propulsionado por quatro motores turbo-hélice Kuznetsov NK-12, cada um com uma potência máxima de cerca de 15.000 cavalos. Cada motor accionava duas hélices contrarrotativas de quatro pás, com aproximadamente 6,2 metros de diâmetro, gerando o som inconfundível que se tornaria uma das marcas da aeronave.

Em operação, o An-22 podia atingir uma velocidade máxima próxima dos 400 nós (Mach 0,60), com uma velocidade óptima em torno dos 286 nós. O tecto absoluto rondava os 33.000 pés, sendo o tecto óptimo de operação cerca de 26.000 pés, com uma razão máxima de subida da ordem dos 1.500 pés por minuto.

O peso máximo à descolagem atingia 250 toneladas, enquanto o peso máximo à aterragem rondava as 190 toneladas. Com uma carga próxima das 60 toneladas, o alcance situava-se em torno das 2.700 milhas náuticas, podendo aumentar significativamente conforme a configuração. O avião necessitava de cerca de 2.200 metros para descolar e aproximadamente 1.600 metros para aterrar, valores notáveis para uma aeronave desta dimensão.

Produção e variantes

Entre 1966 e 1976, foram construídas cerca de 68 unidades, incluindo protótipos. Os três primeiros protótipos, montados em Kiev, distinguiam-se pelo característico nariz envidraçado. A primeira versão de produção, assemblada em Tashkent e equipada com sistema de arranque externo, totalizou 37 aeronaves.

Uma versão melhorada, designada An-22A, introduziu capacidade de arranque aéreo, sistemas eléctricos modificados, rádios actualizados e melhores equipamentos de navegação, somando 28 unidades.

Uma das variantes mais invulgares foi o An-22PZ, convertida a partir de dois exemplares e utilizada para transportar externamente secções das asas dos An-124 e An-225, montadas sobre a fuselagem. Esta versão distinguia-se ainda pela adição de uma terceira deriva central.

Acidentes marcantes

Apesar da sua reputação de robustez, o historial do An-22 inclui acidentes de relevo. O primeiro ocorreu a 18 de julho de 1970, quando uma aeronave da Força Aérea Soviética caiu no Oceano Atlântico. Uma descompressão incontrolada foi apontada como causa provável, embora nunca totalmente confirmada. O acidente vitimou 17 passageiros e 15 tripulantes.

Décadas mais tarde, a 28 de dezembro de 2010, um An-22 da Força Aérea Russa despenhou-se na região de Tula, na Rússia Central, alegadamente devido a uma falha técnica ou de motor, causando a morte de 12 ocupantes.

Os últimos dias

Com o avançar das décadas e a introdução de aeronaves a jacto mais modernas, como o Il-76 e o An-124, o An-22 foi sendo progressivamente retirado da linha da frente. Na década de 2020, estimava-se que apenas dois a três exemplares permanecessem tecnicamente capazes de voar, sem qualquer operação regular.

O acidente ocorrido a 9 de dezembro de 2025, durante um voo de teste pós-manutenção na região de Ivanovo, na Rússia, marcou simbolicamente o fim da carreira operacional do modelo.

Hoje, o Antonov An-22 “Antei” é considerado retirado de facto do serviço activo, sobrevivendo apenas como peça histórica em bases aéreas e museus. Mais do que um avião, foi um símbolo de uma era em que a engenharia levou o conceito do turbo-hélice ao limite — e o seu legado permanecerá para sempre gravado na história da aviação mundial.