A Ucrânia está a redefinir a sua estratégia industrial no setor da defesa, procurando afirmar-se não apenas como destinatária de apoio militar, mas como parceira ativa da indústria europeia. A mensagem foi transmitida por Oleksandr Kamyshin, assessor do Presidente Ucraniano ligado ao desenvolvimento da indústria estratégica do país, durante uma intervenção no decorrer da ASD Convention 2026 – Convenção da AeroSpace and Defence Industries Association of Europe, em Lisboa.

O responsável destacou que a experiência acumulada ao longo de mais de três anos de guerra permitiu à Ucrânia desenvolver rapidamente capacidades avançadas, sobretudo em áreas como drones, sistemas anti-drone e robótica terrestre. Segundo explicou, esta evolução não foi imediata: numa fase inicial, o foco estava na recuperação e manutenção de equipamento militar tradicional, herdado da era soviética, mas o contexto operacional forçou uma transformação acelerada.

Hoje, o objetivo passa por exportar esse conhecimento para a Europa através de parcerias industriais estruturadas. Em vez de atuar de forma independente, a estratégia ucraniana assenta na criação de joint ventures com empresas locais, permitindo a produção direta em território europeu e o reforço das cadeias de abastecimento nacionais.

“Não queremos operar como entidades externas. Queremos integrar-nos plenamente nas indústrias nacionais”, afirmou.

Associações industriais como porta de entrada

Um dos pontos centrais da intervenção foi o papel das associações industriais como facilitadoras de parcerias. De acordo com o responsável, a Ucrânia privilegia um modelo organizado, em que o contacto com empresas estrangeiras é feito através destas estruturas, garantindo maior eficiência na identificação de parceiros estratégicos.

O modelo já está em prática em vários países europeus. Na Alemanha, por exemplo, foram organizados encontros industriais que reuniram empresas ucranianas e alemãs em sessões intensivas de networking. O resultado traduz-se já na criação de várias joint ventures, incluindo unidades que produzem drones com tecnologia ucraniana em solo alemão.

Transformação de empresas históricas

A adaptação da indústria ucraniana também passa pela transformação de empresas tradicionais. O caso da Antonov foi apontado como exemplo paradigmático: conhecida historicamente pela produção de aeronaves, a empresa viu a sua atividade profundamente afetada pela guerra, mas conseguiu reposicionar-se, desenvolvendo novos sistemas militares e diversificando as suas fontes de receita.

Integração europeia e desafios burocráticos

No plano institucional, a Ucrânia tem vindo a aproximar-se dos mecanismos da União Europeia, beneficiando de programas de financiamento e cooperação. Ainda assim, foi reconhecido que a complexidade desses instrumentos representa um desafio, sobretudo para empresas em fase de internacionalização.

A estratégia passa, por isso, por reforçar parcerias com empresas europeias já estabelecidas, facilitando o acesso a esses programas e aumentando a visibilidade dos projetos conjuntos.

Um novo papel na indústria de defesa europeia

A intervenção evidenciou uma mudança de paradigma: a Ucrânia procura posicionar-se como um fornecedor de inovação e capacidade produtiva num momento em que a Europa enfrenta lacunas na sua indústria de defesa.

Com soluções testadas em contexto real de combate e ciclos de desenvolvimento extremamente rápidos, o país apresenta-se como um parceiro capaz de acelerar a modernização tecnológica europeia — especialmente em domínios onde a procura ultrapassa atualmente a oferta industrial.