A Boeing está novamente sob escrutínio das autoridades norte-americanas depois de ter identificado um problema de software que pode afectar uma função de navegação automática dos 737 MAX durante uma situação específica de aproximação falhada.
O problema está relacionado com determinadas versões do software do computador de gestão de voo da família 737 MAX e levou a Federal Aviation Administration (FAA) a iniciar uma análise. O regulador norte-americano anunciou que irá reunir um Corrective Action Review Board (CARB) para avaliar a situação e poderá adoptar medidas imediatas caso seja identificado um risco para a segurança.
A questão surge numa altura particularmente importante para a Boeing, que se encontra nas fases finais do processo de certificação do 737 MAX 10 e prepara as primeiras entregas do 737 MAX 7.
O que acontece com o software?
O problema pode surgir numa sequência específica durante uma aproximação falhada. O cenário envolve uma aproximação de precisão com o piloto automático ligado, seguida de uma arremetida e de alterações à rota previamente programada no sistema de gestão de voo.
Nestas circunstâncias, o sistema de navegação vertical, conhecido como VNAV, pode deixar de funcionar. O VNAV é responsável, entre outras funções, por gerir automaticamente o perfil vertical da aeronave e cumprir as restrições de altitude programadas ao longo da rota.
Mesmo que o VNAV seja desactivado, o piloto automático pode continuar ligado, passando para um modo de controlo de inclinação menos sofisticado. Os pilotos continuam, assim, a ter controlo da aeronave, mas poderão necessitar de executar procedimentos adicionais para gerir a aproximação seguinte.
A situação é particularmente relevante porque uma arremetida ocorre numa fase do voo em que a tripulação já está a lidar com várias tarefas, incluindo a configuração da aeronave, comunicações, navegação e gestão da nova aproximação.
A Boeing informou os operadores sobre o problema e reforçou os procedimentos existentes para as tripulações. A fabricante está também a desenvolver uma actualização de software destinada a corrigir definitivamente a situação. Segundo a empresa, os pilotos estão treinados para efectuar uma aterragem sem recurso ao VNAV.
Software utilizado no MAX 7 e MAX 10
A questão ganha especial importância devido às versões de software envolvidas. O problema está associado às versões 14 e 14.1 do software do computador de gestão de voo.
O 737 MAX 7 recebeu a certificação da FAA em 3 de Agosto de 2026 e foi certificado com a versão 14.
Já o 737 MAX 10 utilizou a versão 14.1 durante os ensaios de certificação. O maior modelo da família MAX encontra-se nas etapas finais do processo de certificação pela FAA, depois de um programa de desenvolvimento que sofreu vários atrasos.
A FAA ainda não indicou se a análise ao software terá impacto no calendário de certificação do MAX 10.
Companhias aéreas pedem versão anterior
A questão também já está a ter impacto nas relações entre a Boeing e algumas companhias aéreas.
A Southwest Airlines e a United Airlines terão solicitado à Boeing que não entregue novos 737 MAX equipados com as versões de software afectadas, optando por uma versão anterior. Por outro lado, Alaska Airlines, American Airlines, Southwest e United indicaram que os seus 737 MAX actualmente em operação não utilizam as versões 14 ou 14.1 em causa.
Não foi divulgado até ao momento quantos aviões em serviço utilizam o software potencialmente afectado.
Problema identificado inicialmente em 2024
Segundo informações divulgadas pela CBS News, a Boeing terá sido informada pela primeira vez sobre o problema por uma companhia aérea em Novembro de 2024. A fabricante analisou então a situação e concluiu, em Fevereiro de 2025, que não constituía um problema de segurança.
Informações adicionais posteriormente fornecidas por operadores levaram a Boeing a realizar uma nova análise formal de segurança. As conclusões dessa análise foram entretanto enviadas à FAA, que irá agora avaliá-las através do CARB.
A Boeing tinha inicialmente indicado que uma correcção permanente poderia estar disponível apenas em 2028, mas está agora a tentar acelerar o desenvolvimento da actualização e das orientações destinadas às tripulações.
Impacto nos próximos 737 MAX
O resultado da análise da FAA poderá ser relevante para os dois programas.
No caso do 737 MAX 7, que já obteve a certificação, a questão passa por determinar se serão necessárias medidas adicionais antes ou durante a entrada da aeronave ao serviço comercial.
Para o 737 MAX 10, a análise ocorre precisamente quando a Boeing se aproxima da conclusão da certificação. Qualquer requisito adicional imposto pela FAA poderá ter impacto no calendário previsto para a entrada em serviço do modelo.
A Boeing tinha como objectivo iniciar as entregas do MAX 7 e do MAX 10 em 2027.
A FAA sublinha, contudo, que a análise ainda está em curso e que irá tomar medidas caso identifique um problema de segurança. Até ao momento, a Boeing afirma que as actuais procedimentos permitem às tripulações gerir a situação em segurança enquanto é desenvolvida a correcção permanente.





