Farnborough International Airshow 2026

Boeing lidera nas encomendas, Airbus reforça posição e Embraer consolida crescimento

A Aviação TV esteve presente no Farnborough International Airshow 2026, que decorreu de 20 a 24 de julho, no Reino Unido. Farnborough tornou-se, durante uma semana, no epicentro da aviação global num momento de profunda transformação estrutural. Sob o céu de Hampshire, a indústria aeroespacial demonstrou uma força comercial robusta, movimentando um total estimado de US$ 84,7 mil milhões em negócios e registando 353 encomendas firmes de aeronaves. Mais do que os números expressivos, a edição de 2026 ficou marcada como a “feira da maturidade e da resiliência”. Em vez do otimismo desenfreado de edições passadas, o mercado operou sob o pragmatismo de uma cadeia de suprimentos global ainda sobrecarregada, a ascensão definitiva das empresas de leasing financeiro (lessors) e o excelente momento estratégico da aviação regional.

Ao longo dos cinco dias do evento foram anunciadas mais de três centanas encomendas firmes de aeronaves comerciais, além de dezenas de opções de compra, direitos de aquisição e contratos relacionados com motores, manutenção e sistemas de defesa. A Boeing terminou a feira com uma ligeira vantagem sobre a Airbus em número de aeronaves encomendadas, enquanto a Embraer voltou a demonstrar a crescente procura pelos seus aviões regionais de nova geração.

Boeing conquista a liderança nas encomendas

A fabricante norte-americana foi a empresa com maior volume de anúncios durante o salão aeronáutico, beneficiando sobretudo da forte procura pelos modelos 737 MAX e 787 Dreamliner.

O maior contrato da semana foi assinado com a SMBC Aviation Capital, que confirmou uma encomenda de 100 Boeing 737 MAX, destinada ao reforço da sua carteira de leasing para operadores de todo o mundo.

Outro dos destaques foi a Riyadh Air, que aumentou a sua encomenda de Boeing 787 Dreamliner, elevando o total para 67 aeronaves, reforçando a estratégia da transportadora saudita para operações intercontinentais.

A Philippine Airlines também anunciou uma intenção de adquirir até 20 Boeing 787-10 Dreamliner para modernizar a sua frota de longo curso.

No segmento de carga, a MSC Air Cargo confirmou a aquisição de cinco Boeing 777-8 Freighter, consolidando aquele modelo como o futuro cargueiro de referência da fabricante.

A Boeing anunciou igualmente a primeira encomenda da sua história proveniente da Uganda Airlines, que incluirá aeronaves 737 MAX e 787 Dreamliner destinadas à expansão da companhia africana.

Airbus mantém forte ritmo comercial

Apesar de ter terminado ligeiramente atrás da Boeing em número de aeronaves anunciadas durante o evento, a Airbus assegurou contratos relevantes tanto no segmento de corredor único como no longo curso.

A Riyadh Air confirmou a aquisição de seis Airbus A350-1000 adicionais, reforçando a aposta na família A350 para voos de longo alcance.

A Philippine Airlines surpreendeu igualmente ao anunciar uma encomenda de nove Airbus A350-1000, demonstrando uma estratégia de diversificação da frota entre os dois maiores fabricantes mundiais.

No mercado de aeronaves de corredor único, a SMBC Aviation Capital confirmou igualmente a compra de 100 aeronaves da família Airbus A320neo, numa das maiores encomendas individuais do certame.

A Virgin Atlantic também anunciou a aquisição de sete Airbus A330-900neo adicionais, completando praticamente a renovação da sua frota de longo curso com este modelo.

Embraer reforça posição no mercado regional

A fabricante brasileira voltou a ser um dos destaques do Farnborough Airshow ao consolidar o sucesso da família E2.

O maior anúncio foi protagonizado pelo Abra Group, acionista das companhias Avianca e GOL, que realizou a sua primeira encomenda à Embraer, adquirindo 20 Embraer E195-E2, com opções para mais 10 aeronaves e direitos de compra adicionais.

A transportadora espanhola Binter confirmou igualmente cinco novos E195-E2, enquanto a Luxair converteu opções anteriormente existentes em três encomendas firmes de E190-E2.

No total, a Embraer anunciou 28 encomendas firmes para a família E2 durante o salão, reforçando uma carteira de pedidos que continua em máximos históricos.

Defesa: menos anúncios, mas forte presença industrial

A edição de 2026 evidenciou também a crescente importância do setor da defesa no Farnborough Airshow. Cerca de metade dos expositores pertenciam à indústria militar, refletindo o aumento dos investimentos em segurança por parte de diversos países.

Embora tenham sido apresentados novos sistemas, tecnologias de vigilância, aeronaves não tripuladas, sensores e soluções de combate, os grandes fabricantes optaram por anunciar poucos contratos de aquisição durante o evento, privilegiando demonstrações tecnológicas e parcerias estratégicas.

A BAE Systems roubou as atenções no terceiro dia ao revelar o Brontanax, a primeira aeronave de combate não tripulada e totalmente soberana desenvolvida no Reino Unido, projetada para atuar de forma integrada com caças de linha de frente.

O Global Combat Air Programme (parceria entre Reino Unido, Itália e Japão para o caça de 6ª geração) confirmou conversações avançadas para a inclusão formal do Canadá no consórcio.

Consolidou-se o avanço da Embraer no mercado militar global. Dias após entregar a primeira unidade à Força Aérea da República Checa, a empresa levou o cargueiro multimissão à exposição estática e a voos de demonstração em Farnborough, ampliando as negociações com nações da NATO.

Fabricantes de motores asseguram contratos históricos

Os fabricantes de motores também tiveram uma presença muito significativa, acompanhando o elevado volume de encomendas de aeronaves.

O maior anúncio pertenceu à CFM International, que assinou com a IndiGo um memorando de entendimento para mais de 1.000 motores LEAP-1A destinados à frota Airbus A320neo da companhia indiana. Trata-se da maior encomenda de motores alguma vez recebida pela empresa.

A Pratt & Whitney assegurou igualmente contratos para fornecer motores GTF destinados à futura frota Airbus A320neo da British Airways.

Além dos novos motores, vários acordos abrangeram manutenção, motores sobresselentes e expansão das redes globais de assistência técnica, demonstrando que o mercado de pós-venda continua a representar uma das principais fontes de receita para o setor.

Descarbonização e Mobilidade Urbana

Os voos de demonstração contaram com o protótipo híbrido-elétrico Saab 340B da GE e a aeronave utilitária 100% elétrica CX300 da Beta Technologies. Paralelamente, a Eve Air Mobility (subsidiária da Embraer) atraiu atenções ao apresentar o modelo em tamanho real do seu eVTOL com experiências de voo simulado.

Presença nacional no FIA 2026

A presença portuguesa ganhou especial destaque através do Pavilhão de Portugal, organizado pelo AED Cluster Portugal, que reuniu várias empresas nacionais dos setores aeronáutico, espacial e da defesa. Entre os principais protagonistas esteve o programa LUS-222, desenvolvido pela EEA Aircraft, detida em partes iguais pelo CEiiA, responsável pelo projeto de engenharia e produção de protótipos, e por um veículo de cinco investidores individuais.

O LUS-222, avião ligeiro multifunções concebido para missões de transporte regional, vigilância, patrulhamento marítimo, evacuação médica e operações especiais, foi um dos projetos em evidência no espaço português, refletindo a ambição de Portugal em afirmar-se como produtor de aeronaves de desenvolvimento próprio.

Já a TEKEVER apresentou as suas mais recentes soluções de sistemas aéreos não tripulados (UAS), reconhecidas internacionalmente pelas suas capacidades de vigilância marítima, reconhecimento e apoio a operações de segurança e defesa. A participação de ambas as empresas no Farnborough International Airshow reforçou a visibilidade da indústria aeronáutica portuguesa e demonstrou a evolução do ecossistema nacional, cada vez mais competitivo nos mercados internacionais da aviação e da defesa.

Produção passa a ser o principal desafio

Apesar do elevado número de anúncios, os responsáveis da Airbus e da Boeing reconheceram que o principal desafio deixou de ser conquistar novas encomendas e passou a ser aumentar a capacidade de produção.

Ambos os fabricantes acumulam carteiras de pedidos que garantem vários anos de atividade industrial, enquanto continuam a trabalhar com fornecedores e fabricantes de motores para ultrapassar constrangimentos nas cadeias de abastecimento.

Esta realidade explica porque muitos analistas consideram que o Farnborough International Airshow 2026 foi menos marcado pela “corrida às encomendas” e mais pela capacidade demonstrada pelos fabricantes para responder a uma procura mundial que continua muito superior à oferta disponível.