O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a aumentar a pressão sobre a fabricante canadiana Bombardier, defendendo que a empresa deve deixar de vender aeronaves no mercado norte-americano caso não passe a produzir mais aviões em território dos Estados Unidos.

Numa publicação na rede social Truth Social, Trump afirmou que não deveria continuar a ser permitida a comercialização de aeronaves Bombardier nos EUA, criticando simultaneamente a qualidade dos produtos da fabricante canadiana e o elevado número de aeronaves adquiridas por clientes norte-americanos.

Os Estados Unidos representam, de facto, o principal mercado da Bombardier. Cerca de metade da frota mundial da fabricante, composta por aproximadamente 5.100 aeronaves, encontra-se em operação no país.

Trump acusa ainda o Canadá de dificultar a atividade de empresas e instituições financeiras norte-americanas no seu território, estabelecendo uma comparação com o tratamento dado pela administração canadiana à fabricante norte-americana Gulfstream.

O Presidente norte-americano voltou também a incentivar os consumidores a privilegiar produtos e serviços nacionais, incluindo aeronaves fabricadas nos Estados Unidos.

Conflito com o Canadá não é novo

A nova ameaça surge na sequência de uma disputa que se arrasta desde o início de 2026 e que envolve a certificação de aeronaves da Gulfstream no Canadá.

Trump acusou anteriormente o organismo canadiano responsável pela certificação aeronáutica de atrasar deliberadamente a aprovação dos Gulfstream G500, G600, G700 e G800.

Em janeiro, chegou mesmo a ameaçar retirar a certificação norte-americana aos Bombardier Global e aplicar uma tarifa de 50% sobre aeronaves produzidas no Canadá.

As ameaças acabaram por não se concretizar. Nenhum certificado de tipo da Bombardier foi retirado e a tarifa anunciada não chegou a ser aplicada.

Entretanto, o Canadá certificou os Gulfstream G500 e G600 em fevereiro. Os modelos G700 e G800 continuavam, à data, a aguardar a conclusão do respetivo processo de validação.

Os procedimentos internacionais de certificação permitem que as autoridades aeronáuticas de cada país solicitem informação técnica adicional antes de validarem uma certificação emitida pelo Estado responsável pelo projeto da aeronave. Por isso, um processo de certificação mais demorado não significa necessariamente que exista uma proibição comercial.

Bombardier já tem uma presença significativa nos EUA

A exigência de que a Bombardier passe a fabricar mais aeronaves nos Estados Unidos surge também num contexto em que a empresa canadiana já possui uma presença relevante no país.

A fabricante emprega cerca de 3.000 pessoas nos Estados Unidos e mantém várias instalações de apoio, incluindo um importante centro em Wichita, no Kansas.

A unidade de Wichita está envolvida em atividades como engenharia, ensaios de voo, modificações de aeronaves e programas destinados a missões especiais, incluindo projetos para clientes ligados à defesa norte-americana.

Embora a montagem final dos jatos Global e Challenger seja realizada sobretudo no Canadá, a produção envolve uma extensa cadeia de fornecimento internacional, com componentes provenientes de empresas norte-americanas.

Uma eventual proibição das vendas da Bombardier teria, por isso, consequências que ultrapassariam a própria fabricante canadiana, afetando fornecedores, centros de manutenção, operadores e clientes nos Estados Unidos.

Milhares de aeronaves Bombardier voam nos EUA

O impacto de uma eventual restrição seria particularmente relevante devido à dimensão da frota Bombardier existente no mercado norte-americano.

Os Estados Unidos acolhem milhares de aeronaves fabricadas pela empresa canadiana, desde jatos executivos até aeronaves utilizadas em operações regionais e missões especializadas.

Uma proibição de novas vendas poderia ainda criar dificuldades para proprietários e operadores que dependem de uma cadeia de fornecimento contínua para obter peças, manutenção e suporte técnico.

Além disso, uma alteração abrupta das regras comerciais poderia atingir empresas norte-americanas que fornecem motores, aviónicos e outros componentes utilizados nas aeronaves Bombardier.

Ainda não existem detalhes sobre uma eventual proibição

Apesar das declarações de Trump, não está claro, para já, que medida concreta poderá ser adotada pela administração norte-americana.

Uma publicação presidencial numa rede social não é, por si só, suficiente para retirar certificações, impedir a comercialização de aeronaves ou estabelecer novas tarifas.

Qualquer decisão nesse sentido teria de passar pelos organismos norte-americanos competentes, dependendo do mecanismo escolhido pela administração.

Uma das possibilidades passa por utilizar a questão da certificação ou das tarifas como instrumento de pressão nas negociações com o Canadá.

Também não está excluída a possibilidade de a Bombardier reforçar o investimento nos Estados Unidos, nomeadamente através da expansão das operações de Wichita, numa tentativa de reduzir a tensão e responder às exigências de Washington.

A transferência integral da produção dos modelos Global e Challenger para os EUA, contudo, seria uma operação de enorme dimensão e complexidade, tendo em conta as atuais instalações, cadeias de fornecimento e processos de produção certificados.

Por enquanto, as aeronaves Bombardier continuam autorizadas a ser comercializadas e operadas nos Estados Unidos. Resta saber se as novas declarações de Trump resultarão numa medida concreta ou se voltarão a servir sobretudo como instrumento de pressão sobre o Canadá.