Lufthansa venceu privatização parcial da TAP com proposta de 1.201 milhões de euros

O grupo alemão foi escolhido pelo Governo português para adquirir uma participação de 49,9% na TAP, superando a proposta da Air France-KLM. A operação prevê um reforço da frota, a possibilidade de integração de aviões A350-900 e o desenvolvimento de Lisboa como plataforma estratégica para o Atlântico Sul.

O Governo português escolheu o Grupo Lufthansa para avançar com a privatização parcial da TAP Air Portugal, numa operação que representa um investimento global de 1.201 milhões de euros nesta primeira fase. A decisão foi aprovada pelo Conselho de Ministros a 14 de outubro, colocando o grupo alemão em vantagem face à Air France-KLM na corrida à entrada no capital da companhia aérea portuguesa.

A proposta da Lufthansa ao detalhe

A proposta da Lufthansa contempla a aquisição de 44,9% do capital da TAP por 1.025 milhões de euros, aos quais se juntam 118 milhões de euros associados à futura disponibilização de 5% das ações aos trabalhadores. Caso estes não subscrevam a totalidade da participação, a Lufthansa ficará com a possibilidade de adquirir as ações remanescentes.

O montante global inclui ainda 58 milhões de euros relacionados com a venda das empresas Cateringpor e SPdH, além de um mecanismo de ajustamento associado à evolução dos resultados da transportadora.

Considerando os valores apresentados, a proposta corresponde a uma avaliação da TAP de aproximadamente 2.407 milhões de euros. Segundo os dados divulgados pelo Governo, esta valorização representa um múltiplo de 6,4 vezes o EBITDA da companhia aérea.

Lufthansa superou proposta da Air France-KLM

A proposta do grupo franco-neerlandês Air France-KLM ascendia a 1.038 milhões de euros, um valor inferior ao apresentado pela Lufthansa. A oferta contemplava ainda a possibilidade de um pagamento adicional de 100 milhões de euros, condicionado ao cumprimento de determinados objetivos financeiros relacionados com o EBITDA e a dívida até 2028.

A componente financeira não foi, contudo, o único fator considerado na decisão. O plano industrial apresentado pela Lufthansa prevê um crescimento significativo da frota da TAP, o reforço da sua capacidade operacional e novos investimentos em Portugal.

As duas propostas garantiam a manutenção dos postos de trabalho e o respeito pelos contratos coletivos em vigor, mas o projeto alemão destacou-se pelas perspetivas de expansão da companhia e pelas oportunidades de integração na rede do grupo.

Frota da TAP poderá atingir 130 aviões

Um dos elementos centrais da proposta vencedora é o aumento da frota da TAP. O plano prevê passar das atuais 101 aeronaves para 117 aviões em 2035, podendo o número subir para 130 numa fase posterior, associada à entrada em funcionamento do novo aeroporto de Lisboa.

O investimento total previsto para o desenvolvimento da frota e a expansão das operações poderá atingir os 4.000 milhões de euros.

Entre as possibilidades contempladas está a transferência de até oito Airbus A350-900 para a TAP a partir de 2030. A integração destes aviões de longo curso poderá reforçar a capacidade da companhia em mercados intercontinentais e apoiar a expansão das ligações entre a Europa e destinos de longo curso. Estas aeronaves com maior capacidade permitem igualmente utilizar a atual capacidade do Aeroporto Humberto Delgado aumentando a oferta de lugares, mesmo num cenário de atrasos na construção do novo aeroporto.

A proposta inclui também a criação de uma escola de aviação Base de Tancos. O projeto deverá envolver um investimento de centenas de milhões de euros na modernização das infraestruturas e a criação de cerca de 200 postos de trabalho.

TAP passa a integrar o maior grupo europeu de aviação

Com a entrada da Lufthansa no capital, a TAP ficará ligada a um dos maiores grupos de transporte aéreo do mundo e passará a integrar o conjunto de companhias de rede controladas pelo grupo alemão.

Este universo inclui a Lufthansa, a SWISS, a Austrian Airlines, a Brussels Airlines e a ITA Airways, além da companhia de baixo custo Eurowings e de outras transportadoras regionais.

A dimensão do grupo oferece à TAP oportunidades de acesso a uma rede mais ampla, de cooperação operacional e de reforço da sua presença nos mercados internacionais. Em 2025, o Grupo Lufthansa transportou cerca de 135 milhões de passageiros, enquanto a companhia portuguesa registou aproximadamente 16,7 milhões.

O grupo alemão dispõe de uma frota de cerca de 737 aeronaves, serve aproximadamente 330 destinos em perto de 100 países e registou receitas de 39,6 mil milhões de euros.

A TAP acrescenta uma rede com mais de 90 destinos e uma posição relevante nas ligações entre a Europa e o Brasil. Esta presença no mercado brasileiro constitui um dos principais ativos estratégicos da companhia portuguesa, que poderá reforçar a posição da Lufthansa na América Latina.

A estratégia passa por consolidar Lisboa como um importante centro de ligações entre a Europa, a América do Sul e outros mercados de longo curso, aproveitando a localização geográfica da capital portuguesa.

Lisboa como plataforma estratégica para o Atlântico Sul

A Lufthansa tem defendido a importância da TAP para o desenvolvimento da sua rede intercontinental. O grupo pretende reforçar o papel da companhia portuguesa enquanto transportadora de bandeira e consolidar Lisboa como um hub estratégico para as ligações ao Atlântico Sul.

A empresa alemã já tinha manifestado, durante o processo de privatização, a intenção de apoiar o crescimento da TAP com base na sua experiência na integração e desenvolvimento de companhias aéreas de rede.

A integração permitirá igualmente à TAP manter-se na Star Alliance, a aliança global de companhias aéreas da qual já faz parte.

À semelhança do processo desenvolvido em torno da ITA Airways, a Lufthansa deverá procurar a integração da companhia portuguesa na parceria transatlântica com a United Airlines. A companhia norte-americana já manifestou interesse na transportadora portuguesa junto do Governo, abrindo perspetivas de aprofundamento da cooperação nas ligações entre a Europa e a América do Norte.

Presença da Lufthansa em Portugal deverá crescer

O grupo alemão já mantém uma presença significativa no mercado português, com 353 voos semanais de e para Portugal e mais de 500 trabalhadores no país.

Entre as operações existentes encontra-se o centro de serviços partilhados Lufthansa Ground Services Portugal, no Porto.

O grupo está também a desenvolver uma unidade da Lufthansa Technik em Santa Maria da Feira, destinada à reparação de componentes de motores de aeronaves. Segundo a empresa, este investimento poderá permitir elevar o número de trabalhadores para mais de mil até 2030.

A entrada no capital da TAP poderá aprofundar esta presença industrial e operacional, reforçando a ligação entre Portugal e um dos principais grupos europeus de aviação.

Lufthansa admite adquirir a totalidade da TAP

A proposta alemã contempla também uma possível segunda fase de privatização, que poderá conduzir à aquisição da totalidade do capital da TAP.

Para os restantes 50,1%, a Lufthansa propõe um pagamento de 863 milhões de euros, acompanhado da atribuição de uma participação de 5% no capital do próprio grupo alemão, avaliada em 488 milhões de euros.

Caso esta segunda fase se concretize nos termos apresentados, a valorização global da TAP poderá atingir 2.552 milhões de euros, considerando as duas etapas da operação.

Esta possibilidade não significa, porém, que a aquisição integral esteja já decidida. O seu avanço dependerá dos termos contratuais, das decisões governamentais e das condições aplicáveis às fases seguintes do processo.

Processo deverá prolongar-se até 2028

A escolha da Lufthansa representa um passo importante, mas não conclui a privatização da TAP. O processo terá ainda de passar por negociações finais, pela aprovação dos contratos e pela obtenção das autorizações regulatórias necessárias.

Entre os instrumentos contratuais a preparar pela Parpública estarão o contrato de compra e venda das ações e o acordo parassocial, que definirá os direitos e os poderes de gestão associados à participação no capital.

Depois da aprovação das minutas pelo Conselho de Ministros, o investidor deverá ter cinco dias para apresentar eventuais reclamações. Existindo acordo, a assinatura dos contratos estava prevista para ocorrer até ao final do ano.

A concretização da operação dependerá ainda das autorizações da ANAC, da Autoridade da Concorrência e das entidades competentes nos países onde as companhias envolvidas operam. O escrutínio da Comissão Europeia, através da Direção-Geral da Concorrência, deverá constituir uma das etapas mais demoradas.

O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, indicou que o procedimento europeu poderá prolongar-se por 18 a 24 meses, apontando para 2028 como horizonte provável para o encerramento da operação.

Só após a conclusão das formalidades e a concretização da aquisição poderá avançar a oferta de subscrição de 5% do capital destinada aos trabalhadores.

A escolha da Lufthansa abre, assim, uma nova etapa para a TAP, com a perspetiva de maior integração internacional, expansão da frota e reforço de Lisboa enquanto plataforma de ligações intercontinentais. O impacto efetivo desta mudança dependerá, contudo, da execução do plano industrial e da conclusão das várias fases da privatização.

Nova escola de pilotos em Tancos representa investimento de 500 milhões de euros

Um dos projetos de maior dimensão associados à proposta da Lufthansa é a criação de uma escola de formação de pilotos de aviação civil e militar em Tancos, no distrito de Santarém. A iniciativa prevê um investimento global de 500 milhões de euros e pretende reforçar a capacidade portuguesa de formação aeronáutica, criando simultaneamente novas oportunidades de emprego e de desenvolvimento económico.

O projeto deverá incluir a modernização das infraestruturas existentes na Base de Tancos, nomeadamente a pista e as instalações necessárias ao funcionamento da escola. A intenção é criar condições para a formação de pilotos civis e militares, aproveitando uma infraestrutura que já desempenha funções relevantes para as Forças Armadas portuguesas.

De acordo com a informação divulgada no âmbito da proposta de privatização, o investimento poderá permitir a criação de cerca de 200 postos de trabalho. A entrada em funcionamento está apontada para o horizonte de 2029 a 2030, embora a concretização do calendário dependa do desenvolvimento do projeto e dos procedimentos necessários.

Estado deverá comparticipar a modernização da pista

O investimento previsto deverá contar com uma participação do Estado português de aproximadamente 50 milhões de euros, destinada sobretudo à intervenção na infraestrutura aeroportuária. O montante restante será enquadrado no investimento global associado ao projeto.

A modernização da pista e das instalações deverá permitir melhorar as condições de utilização da base para atividades de formação aeronáutica, sem eliminar a sua função militar. A concretização desta componente será determinante para que o espaço possa acolher operações civis de forma compatível com as necessidades operacionais das Forças Armadas.

O projeto deverá ainda exigir a definição de regras de utilização da infraestrutura, de procedimentos de segurança e da articulação entre as atividades militares e civis. Os pormenores relativos ao modelo de gestão, à capacidade de formação e à organização das operações terão de ser desenvolvidos nas fases seguintes.

Formação civil e militar na mesma infraestrutura

A escola pretende reunir formação aeronáutica civil e militar num mesmo espaço, criando condições para desenvolver competências especializadas num setor que exige elevados padrões de qualificação e investimento em equipamentos.

A componente civil poderá contribuir para aumentar a capacidade de formação de pilotos e responder às necessidades de recursos humanos da indústria da aviação. A vertente militar, por sua vez, poderá reforçar as condições disponíveis para a preparação de profissionais ligados às operações aéreas das Forças Armadas.

A utilização partilhada de uma infraestrutura militar exige, contudo, que as atividades civis sejam organizadas de forma a não prejudicar as missões operacionais. A manutenção da capacidade militar da Base de Tancos constitui, por isso, uma condição central para o desenvolvimento do projeto.

A concretização da escola dependerá da preparação das infraestruturas, da definição do modelo de funcionamento e da obtenção das autorizações aplicáveis à atividade aeronáutica.

Impacto económico para a região

Além da formação de pilotos, o projeto poderá gerar efeitos económicos na região envolvente, através da criação de emprego direto e do desenvolvimento de atividades complementares ligadas à aviação, à manutenção, aos serviços e à formação técnica.

A criação de cerca de 200 postos de trabalho constitui uma das principais metas anunciadas, embora a distribuição dessas funções e o calendário de contratação dependam da implementação efetiva do projeto.

Para Tancos e para a região, o investimento representa a possibilidade de reforçar a atividade económica associada à infraestrutura militar e de atrair novas competências para o setor aeronáutico.

A escola integra um conjunto mais alargado de investimentos que a Lufthansa pretende desenvolver em Portugal, numa estratégia que inclui o reforço das operações da TAP, a expansão da frota e o crescimento da presença industrial do grupo alemão no país.

Apesar da dimensão anunciada, os 500 milhões de euros correspondem ao investimento global previsto para o projeto, não estando publicamente detalhada a distribuição integral dos custos pelas diferentes infraestruturas e componentes da escola. O alcance efetivo da iniciativa dependerá da execução do investimento, da conclusão das obras e da entrada em funcionamento das atividades de formação.

A criação da escola de pilotos em Tancos acrescenta, assim, uma componente de formação e desenvolvimento de infraestruturas à proposta industrial da Lufthansa para Portugal. A par da expansão da TAP e do reforço de Lisboa como plataforma intercontinental, o projeto poderá contribuir para consolidar a presença do grupo alemão na economia portuguesa e criar novas oportunidades para o setor da aviação.