Portugal quer deixar de comprar “chave na mão” e aposta na indústria nacional de Defesa
Portugal quer mudar o paradigma do investimento em Defesa, deixando para trás a dependência de soluções “chave na mão” compradas no exterior e apostando no desenvolvimento de capacidades industriais próprias. A mensagem foi deixada por José Neves durante a sua intervenção na ASD Convention 2026 – Convenção da AeroSpace and Defence Industries Association of Europe, que decorre em Lisboa de 27 a 28 de abril.
O responsável defendeu que o essencial não é apenas cumprir metas como os 2% do PIB em Defesa — objetivo que Portugal atingiu em 2025 pela primeira vez em cinco décadas —, mas garantir que o investimento é feito de forma estratégica. “Mais importante do que quanto investimos é como investimos”, sublinhou.

Nesse sentido, Portugal está a promover uma mudança de modelo: reduzir a compra de soluções prontas no exterior e reforçar o desenvolvimento interno de capacidades industriais, contribuindo simultaneamente para uma base tecnológica e industrial europeia mais robusta e resiliente.
Reforço da indústria nacional e integração europeia
Segundo José Neves, o objetivo passa por posicionar Portugal como um parceiro ativo nas cadeias de valor europeias da Defesa, deixando de ser apenas cliente para se tornar fornecedor e integrador. “Estamos prontos para ser mais do que participantes individuais e integrar projetos europeus”, afirmou.
O setor nacional da aeronáutica, espaço e defesa representa atualmente cerca de dois mil milhões de euros de volume de negócios e mais de 20 mil empregos, com forte orientação exportadora e um crescimento consistente na última década.
O presidente do cluster destacou ainda o papel central das pequenas e médias empresas, que representam cerca de 80% do tecido empresarial do setor. Longe de serem apenas fornecedoras, estas empresas são descritas como “especializadas, inovadoras e cada vez mais integradas na cadeia de valor europeia”.
Forças Armadas como motor de inovação
Outro dos pontos centrais da intervenção foi a colaboração com as Forças Armadas, que José Neves considera fundamentais não apenas como utilizadores finais, mas como parceiros ativos no desenvolvimento tecnológico.
“As Forças Armadas ajudam a definir requisitos operacionais, a testar e validar soluções, garantindo que o que é desenvolvido responde a necessidades reais”, explicou.
Investimento histórico e aposta europeia
Portugal está a realizar um investimento considerado histórico, com cerca de cinco mil milhões de euros em aquisições na área da Defesa, com foco em fornecedores europeus.
O apelo foi também dirigido aos grandes contratantes internacionais, incentivando-os a integrar empresas portuguesas nas suas cadeias de fornecimento. “Ao trabalhar com Portugal, estão a reforçar cadeias de valor com um parceiro confiável, competitivo e com excelência em engenharia”, afirmou.
Sustentabilidade no centro da estratégia
A intervenção abordou ainda a transição sustentável no setor aeroespacial, apontando Portugal como um país bem posicionado graças à combinação de energias renováveis, capacidade industrial e compromisso político.
Foi destacada uma parceria recente de 50 milhões de euros na área da inovação, integrada numa estratégia mais ampla focada em descarbonização, novas soluções de mobilidade e digitalização.
“Europa tem de entregar resultados”
A concluir, José Neves deixou um apelo à ação no contexto europeu: mais do que identificar desafios, é necessário acelerar soluções e reforçar a cooperação entre países e empresas.

“Europa não precisa apenas de visão, precisa de entregar resultados”, afirmou, sublinhando o papel das PME como motor dessa transformação.





