A Ryanair anunciou esta semana um corte significativo na sua operação na Bélgica a partir do inverno de 2026/2027, decisão que inclui a eliminação de um milhão de lugares (menos 22%), a retirada de cinco aviões baseados e o cancelamento de 20 rotas nos aeroportos de Bruxelas-Zaventem e Charleroi.

A medida surge como resposta à intenção do Governo federal belga de duplicar a taxa nacional sobre passageiros aéreos para 10 euros a partir de 2027, bem como à proposta da autarquia de Charleroi de aplicar uma nova taxa municipal de 3 euros por passageiro já no próximo ano.

Segundo a companhia irlandesa, estas decisões fiscais representam uma perda de 500 milhões de dólares em investimento no país e colocam “milhares de postos de trabalho em risco”.

A Bélgica já tinha aumentado, no verão, a taxa aérea em até 150% para voos superiores a 500 quilómetros. Na semana passada, o Governo voltou a agravar o imposto, prevendo elevar o valor para 11 euros em 2029. Paralelamente, a iniciativa da câmara municipal de Charleroi gerou divisões políticas na Valónia, onde vários líderes classificaram a taxa local como “incompreensível” e prejudicial para o emprego regional.

A Ryanair considera que o país está a transformar-se “num dos mercados aéreos menos competitivos da Europa”, numa altura em que outros Estados-membros seguem a direção oposta. Suécia, Hungria, Itália e Eslováquia estão a eliminar taxas de aviação, e a Alemanha prepara uma redução fiscal em 2026 após reconhecer que aumentos anteriores foram contraproducentes.

O plano divulgado pela Ryanair prevê:

  • 1 milhão de lugares retirados dos planos de voo
  • 5 aeronaves baseadas removidas (todas em Charleroi)
  • 20 rotas canceladas – 13 em Charleroi e 7 em Bruxelas-Zaventem

A transportadora avisa ainda que, caso a taxa municipal de Charleroi avance, os cortes poderão iniciar-se já em abril de 2026, com novas reduções de rotas e redistribuição de capacidade para outros mercados.

O diretor comercial da companhia, Jason McGuinness, criticou duramente o aumento fiscal, classificando as decisões como “bizarra” e “prejudicial”. Em comunicado, afirmou que “estes aumentos sucessivos tornam a Bélgica totalmente não competitiva” e reforçou que, se o Governo pretende estimular a economia, “deve eliminar a taxa de aviação, não duplicá-la”.

Relativamente à taxa proposta em Charleroi, McGuinness foi ainda mais longe, considerando-a “absurda”, defendendo que acabará por “destruir emprego e reduzir receitas fiscais no futuro”.

A contestação da Ryanair surge na sequência de alertas já feitos por outras companhias. A Brussels Airlines reiterou recentemente que não consegue absorver os novos impostos federais e que terá de refletir o aumento no preço dos bilhetes. Ambas as transportadoras alertam que os viajantes poderão optar por aeroportos vizinhos — como Eindhoven, Lille ou Düsseldorf — onde as taxas são mais baixas.

Com novas subidas fiscais previstas e uma taxa municipal iminente, a aviação belga enfrenta um período de forte tensão política e económica, marcado por receios de perda de competitividade e potenciais impactos no emprego.