Após a instalação da sua subsidiária de Defesa em Lisboa, a Embraer vai dar mais um passo na expansão da sua operação em Portugal, criando uma nova unidade especializada em controlo de tráfego aéreo e integração de sistemas de defesa. A informação foi confirmada por Frederico Lemos, diretor de operações da Embraer em Lisboa e responsável máximo pela atividade da empresa no país.
A nova empresa, designada ATEC, será também sediada na capital portuguesa e irá complementar a já existente “Embraer Defense Europe”, inaugurada em 2023 e liderada pelo próprio Frederico Lemos. Esta estrutura tem como missão responder às exigências da União Europeia e da NATO, reforçando a posição de Portugal como plataforma estratégica da fabricante brasileira no setor da defesa.
O engenheiro e antigo CEO da EID explicou que esta nova aposta “confirma a vontade da empresa em criar valor e desenvolver a sua atividade para a Europa e para a NATO, a partir de território português”.
A Embraer mantém uma ligação com Portugal há duas décadas, iniciada com a entrada no capital da OGMA, e desde então tem vindo a expandir-se nas áreas da defesa, aviação comercial e executiva, além dos serviços de manutenção e suporte. Em Lisboa, já existe uma estrutura com valências de engenharia, logística, desenvolvimento de negócio e relacionamento institucional com autoridades nacionais e europeias.
Embora a construção de uma nova fábrica esteja a ser considerada, a prioridade atual passa por expandir as instalações de Évora, onde será criado um centro de engenharia e tecnologia focado em materiais compósitos, com a contratação prevista de cerca de 20 engenheiros.
No centro da operação está o KC-390, uma aeronave multifunções descrita como o “canivete suíço dos ares”. O contrato firmado com o Estado português em 2019, no valor de 850 milhões de euros, prevê a aquisição de cinco unidades e uma de opção que foi recentemente confirmada pelo governo português, das quais três já foram entregues. O modelo está a ser procurado por vários países — “dez da NATO e dois fora da Aliança Atlântica, como a Coreia do Sul” —, segundo a Embraer.
Grande parte da produção do KC-390 ocorre em solo nacional, incluindo elementos cruciais como fuselagem, asas e estabilizadores, o que, nas palavras de Frederico Lemos, torna Portugal “a plataforma de lançamento da aeronave para outros parceiros da NATO”. O projeto envolveu “centenas de milhares de horas de engenharia portuguesa” e foi adaptado aos requisitos específicos de entidades como a ONU, UE e NATO.
Durante o Paris Air Show, o ministro da Defesa, Nuno Melo, explicou que a sexta aeronave prevista no contrato poderá gerar lucro para Portugal, afirmando que “se Portugal a quisesse vender, a revenderia com um enorme lucro”.
O governante sublinhou ainda os benefícios desta parceria, que poderá ser ampliada com a venda de até mais dez aeronaves, estimando um retorno de 11 milhões de euros por avião para o Estado português.
Lemos destaca também o potencial de acordos de tipo “Governo-Governo (G2G)”, que simplificariam os processos de aquisição e criariam sinergias no atual contexto de reforço da defesa europeia: “traz esses benefícios de sinergias e otimização de recursos para terem plataformas modernas e capazes que projetam as capacidades das suas Forças Armadas para as próximas décadas”.
Já sobre os 12 A-29N Super Tucano, cujo contrato envolve também simuladores de voo e serviços complementares no valor de 200 milhões de euros, o primeiro voo foi realizado em julho. Portugal será o primeiro país a operar esta versão adaptada aos padrões da NATO.
A produção dos A-29N decorre também em território nacional, em colaboração com empresas como OGMA, GMV, ETI e CEIIA, reforçando a integração da indústria portuguesa no setor da Defesa.
A Embraer pretende continuar a trabalhar com parceiros tecnológicos portugueses, incluindo o centro de engenharia em Matosinhos e empresas como a Tekever, dedicada a soluções com drones, com sede em Ponte de Sor.
Questionado sobre o futuro, o responsável da Embraer afirmou: “temos muito orgulho no relacionamento que temos tido com diferentes governos ao longo destes 20 anos de presença no país e esperemos que assim continue a ser.”
Sobre a possibilidade de novos incentivos fiscais ou apoios, o responsável admite: “Tudo ajuda com os bons projetos que nós temos, com boas pessoas e com um bom relacionamento institucional e eu acho que o futuro vai ser risonho para todos.”
Ao ser confrontado com a eventual construção de uma nova aeronave em Portugal, Lemos deixou apenas um enigmático comentário: “Quem sabe? Não poderemos adiantar muito, mas a Embraer é uma companhia que já projetou dezenas de aeronaves na sua história, certamente não vai parar por aqui.”
