Houve um tempo em que voar na Alitalia era muito mais do que apanhar um avião. Era entrar num ritual de elegância, em que cada gesto parecia coreografado e cada detalhe lembrava ao passageiro que estava a embarcar num pedaço vivo da Itália. O aroma intenso de um café expresso misturava-se com o som musical da língua italiana nos anúncios de cabine, e até o simples gesto de receber um chocolate Baci Perugina transformava-se num instante de encanto, guardado como recordação de viagem.

A história começou em 1946, quando a Itália, ainda marcada pelas feridas da guerra, procurava reencontrar a sua identidade e projetar uma nova face para o mundo. Nascia a Aerolinee Italiane Internazionali, fruto de uma parceria entre capitais italianos e britânicos, com o apoio da British European Airways. Era um projeto que ia muito além do transporte aéreo: simbolizava o renascimento de uma nação e a vontade de mostrar modernidade e confiança.

A 5 de maio de 1947, o primeiro voo partiu de Turim rumo a Roma e Catania num Fiat G.12 Alcione, discreto e fiável, como quem abre caminho para um futuro maior. Poucos meses depois, foi a vez do Savoia Marchetti SM.95 assumir o protagonismo nos céus internacionais. O quadrimotor italiano, com as suas linhas sólidas e motores que ecoavam esperança, ligava Roma a Oslo e a outras capitais europeias. Não era apenas um avião: era um símbolo. Cada descolagem do SM.95 trazia consigo a bandeira tricolor, mostrando ao mundo que a Itália voltava a levantar voo. Para muitos passageiros, era a primeira vez que sentiam que o país, depois das sombras da guerra, estava de novo ligado ao futuro.

Em 1948, a frota ganhou modernidade com o Douglas DC-6, que ousou atravessar o Atlântico até Buenos Aires. Esse voo não era apenas uma rota: era a prova de que a Itália voltava a projetar-se para além das suas fronteiras, levando consigo cultura, estilo e identidade.

Nos anos 50 e 60, a Alitalia consolidou-se como embaixadora da “dolce vita”. As suas tripulações tornaram-se ícones de estilo, vestindo fardas desenhadas pelas Sorelle Fontana, que pareciam saídas diretamente das passarelas de Roma. A companhia foi transportadora oficial dos Jogos Olímpicos de Roma em 1960, levando atletas, autoridades e sonhos, e tornou-se reflexo de um país moderno e criativo. Voar na Alitalia era transportar consigo a imagem de uma Itália confiante e elegante.

Mas a experiência não se limitava ao olhar. A bordo, serviam-se massas frescas, risottos cremosos e pratos preparados segundo receitas tradicionais. Os vinhos eram cuidadosamente selecionados das regiões DOC e DOCG, com Chianti, Barolo ou Brunello di Montalcino a acompanharem refeições em bandejas de prata. O café expresso, servido em porcelana, encerrava cada serviço como um ritual, lembrando que a hospitalidade italiana estava presente até a dez mil metros de altitude. Era um luxo discreto, mas inesquecível, que fazia da companhia uma extensão da própria cultura nacional.

A década de 70 trouxe a era da majestade. O Boeing 747-200, batizado como “Regina dei Cieli”, tornou-se símbolo de uma Itália confiante no futuro. Imponente e orgulhoso, transportava centenas de passageiros rumo a Nova Iorque, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Joanesburgo ou Tóquio. Ao lado deste gigante, voavam os DC-10, os DC-9 e os Boeing 727, mantendo viva a extensa rede europeia e alimentando os grandes voos intercontinentais. Foi nesse tempo que a Alitalia conquistou o estatuto de sétima maior companhia aérea do mundo, um motivo de orgulho para o país inteiro.

Nos anos 80, o glamour atingiu o auge. Nas cabines executivas, os passageiros recebiam kits de bordo assinados pela Bulgari, as ementas incluíam pratos de autor acompanhados por vinhos de prestígio e as tripulações exibiam uniformes desenhados por Giorgio Armani, sóbrios e elegantes. Cada voo transformava-se num desfile silencioso de estilo. O MD-80 consolidou a presença da companhia na Europa, enquanto o 747SP encurtava oceanos, ligando Roma a Tóquio sem escalas, levando consigo a imagem de um país sofisticado e moderno.

Havia ainda um privilégio que nenhuma outra companhia podia igualar. Durante décadas, a Alitalia foi a transportadora oficial do Papa em viagem apostólica, em voos especiais identificados pelo código AZ4000. De Paulo VI a João Paulo II, de Bento XVI a Francisco, todos confiaram à companhia de bandeira italiana as suas primeiras jornadas internacionais. Para tripulações e passageiros, não era apenas uma operação: era sentir que a Alitalia levava consigo não apenas a imagem de um país, mas também a espiritualidade de uma nação que se abria ao mundo através das suas asas.

A Alitalia não cresceu sozinha. Ao longo das décadas, surgiram subsidiárias que reforçaram a rede regional. A ATI – Aero Trasporti Italiani, com os seus DC-9, aproximava cidades italianas da rede internacional. Mais tarde, a Alitalia Express introduziu a agilidade dos ATR e dos Embraer, consolidando ligações nos anos 90. Já a CityLiner, com os modernos Embraer 170 e 190, prolongou essa missão, assegurando que até os aeroportos mais pequenos permanecessem ligados ao mundo através de Roma e Milão. Estas operações discretas, mas essenciais, eram o suporte que mantinha acesa a grande rede global.

Na década de 90, a companhia afirmou-se como transportadora global. Chegaram os MD-11, os Boeing 767 e os Airbus de nova geração, e a rede expandiu-se para a Ásia e para as Américas. A Alitalia tornou-se membro fundador da aliança SkyTeam, ao lado da Air France e da KLM, consolidando a sua posição no mercado internacional. De Roma partiam voos para Nova Iorque, Miami, São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Tóquio, Pequim ou Seul, numa rede que levava a Itália a todos os continentes.

Portugal também fazia parte dessa rede. Desde os anos 50, os voos Roma–Lisboa aproximaram os dois países, primeiro em DC-6, depois em DC-9, MD-80 e Airbus A320. Houve períodos em que também o Porto recebia voos diretos, e para muitos passageiros portugueses a Alitalia foi a ponte para atravessar o Atlântico rumo a Nova Iorque, São Paulo ou Tóquio, sempre com escala em Roma e com um toque de Itália já a bordo.

O novo milénio trouxe mudanças e novos aviões. Os Boeing 777 e os Airbus A330 mantiveram viva a presença italiana no longo curso. Houve uma tentativa de renascimento com a entrada da Etihad Airways, que introduziu uniformes luxuosos em tons bordô e verde-escuro e tentou devolver à companhia o brilho perdido. Mas as dificuldades financeiras nunca cessaram, e a pandemia de 2020 apenas precipitou o inevitável. A 15 de outubro de 2021, o voo AZ1586 entre Cagliari e Roma marcou o fim de um ciclo de 74 anos.

No entanto, a história não terminou nesse dia. Das cinzas da Alitalia nasceu a ITA Airways, herdeira do legado mas com nova imagem e ambição. Jovem e determinada, começou o seu caminho com o apoio estratégico da Lufthansa, que lançou as bases para a sua integração numa rede global. Foi como passar o testemunho: a Alemanha ajudava a Itália a voltar a levantar voo, sob outro nome mas com a mesma alma.

A Alitalia foi mais do que aviões, mais do que rotas, mais do que estatísticas. Foi símbolo de um país que acreditava que voar podia ser arte. Foi passarela de moda nos céus, foi bandeira tricolor nas asas de um 747, foi vinho, gastronomia e hospitalidade servidos com um sorriso. Foi também a companhia que levou o Papa ao mundo, transformando cada voo AZ4000 numa viagem de fé e de história. Hoje já não existe, mas continua a voar — não nos céus, mas na memória e no coração da aviação mundial.

Em colaboração com Alitalia