Nos últimos dois meses, os passageiros que necessitam de controlo de passaportes no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, têm enfrentado um cenário caótico. As filas para entrada em Portugal chegam, por vezes, a ultrapassar as quatro horas, enquanto, à saída, a espera ronda em média uma hora. O problema tem origem num novo sistema eletrónico de controlo de passaportes que, em vez de agilizar o processo, tem provocado atrasos ainda mais graves.
O sistema, instalado pelo Serviço de Segurança Interna (SSI) em maio, entrou em funcionamento sem que fossem realizados testes adequados ou qualquer plano de contingência. A ativação aconteceu sem aviso prévio à ANA Aeroportos, entidade gestora do aeroporto, o que agravou ainda mais a situação. Fontes próximas do processo denunciam que o sistema está praticamente inoperacional desde o primeiro dia.
Sem alternativa funcional, quase todos os passageiros são encaminhados para o controlo manual, operado pela PSP, cujo efetivo é insuficiente para responder ao elevado fluxo de viajantes – especialmente durante o pico do verão. O aeroporto movimenta mais de 100 mil passageiros por dia, sendo que uma parte significativa tem de passar pelo controlo de fronteiras.
Relatos de turistas exaustos, crianças e idosos em pé durante horas tornaram-se frequentes. Há mesmo casos de passageiros que perderam voos devido ao tempo de espera no controlo de saída. As longas filas e o ambiente de frustração têm sido amplamente partilhados nas redes sociais, prejudicando a imagem de Portugal como destino turístico e podendo comprometer a escolha de Lisboa como porta de entrada na Europa.
A ANA Aeroportos esclarece que não tem responsabilidade nesta crise, uma vez que a gestão do controlo fronteiriço é da competência exclusiva das autoridades de segurança. A tutela do setor, o Ministério das Infraestruturas, está a acompanhar o caso e já terá pressionado o SSI a encontrar uma solução rápida, mas fontes governamentais admitem “dúvidas legítimas” sobre a promessa de resolução até ao início de julho.
Para agravar a situação, até o servidor responsável pelo registo eletrónico de entradas e saídas tem falhado, exigindo substituição urgente. No aeroporto, há dezenas de novas máquinas ainda embaladas, à espera de instalação e configuração adequada – um sinal claro da falta de preparação de todo o processo.
Os impactos vão além do desconforto dos passageiros: os atrasos no controlo de saída estão a provocar atrasos nos voos, gerando um efeito dominó na operação do aeroporto.
Num momento em que Portugal procura reforçar a sua posição no turismo europeu, este colapso tecnológico e logístico surge como um grave revés para a reputação do país.
